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TEXTO APRESENTADO NA CONFERÊNCIA “DIVERSIDADE DE GÉNERO NA INFÂNCIA” – AMPLOS- CIES-ISCTE – dia 8 de outubro de 2016 – núcleo AMPLOS-INFÂNCIA

Crianças de expressão de género não normativo, criativo, não binário…

São já muitos os nomes para falar, nem mais nem menos, de gente pequenina que, assim que inicia o seu processo de comunicação com o mundo, o faz de forma não normativa.

São os meninos que gostam de cor de rosa, purpurinas, bonecas, vestidos;

Meninas que adoram todo o universo masculino.

Parece, à partida, um conceito de simples compreensão e aceitação. Porém a realidade é, na grande maioria dos casos que conhecemos, bem mais dura.

Estas crianças. são sujeitas a discriminação desde tenra idade e, infelizmente, o preconceito surge no meio escolar e, por vezes, no seu próprio seio familiar.

As famílias questionam a simples compra de um brinquedo.

“Poderemos oferecer o vestido de Princesa ao menino, as chuteiras à menina?”

“Haverá o olhar reprovador dos avós, tios, daqueles amigos mais conservadores, que nunca entenderam os espetáculos do menino com as roupas da prima?”

Ou,

“Irá o primo recusar-se a jogar à bola com a menina.”

“Deveremos nós deixar que levem o brinquedo novo para a escola como fazem as outras crianças?”

“Conseguiremos protegê-los? Iremos expô-los a situações de bulliyng?”

“Estarão as escolas sensibilizadas e dotadas de meios para proteger os nossos filhos?”

O preconceito social, a falta de informação e formação sobre esta matéria é enormemente verificada no meio escolar. As famílias são deixadas ao abandono e sem argumentos, muitas delas ainda em conflito entre si. São confrontadas quotidianamente com a questão da aceitação da expressão de género dos seus filhos.

Qual será o melhor caminho? A aceitação sem restrições… aceitação parcial… ou a proibição?

É assim que nos chegam à AMPLOS estas famílias. Vêm cheias de dúvidas e inseguranças, sedentas de partilha com outros pais. Os seus filhos, – e importa referir que, até à data, são só famílias de crianças de sexo masculino – têm idades entre os 4 e os 8 anos e usam como palco principal da sua expressão de género, ainda sem filtros, os jardins de infância, escolas de ensino pré-escolar e ensino básico, locais onde, infelizmente, ainda se estereotipam as brincadeiras. Ainda se usa amiúde o “Cantinho da Casinha de Bonecas e da Cozinha” para as meninas e a “Caixa das Bolas e dos Carrinhos” para os rapazes.

Surgem-nos relatos de discriminação. Episódios terríveis, ainda mais se tivermos presente onde acontecem e a idade destes alvos do preconceito. Estas crianças são vítimas de bulliyng e sentem-se “A” causa do conflito. Sentem-se insistentemente “erradas”!

O seu discurso espelha o conflito interior que os habita tão precocemente:

Uma dessas crianças, chamemos-lhe Íris porque é de todas as cores, e, entre os 4 e os 5 anos, verbalizou sentimentos aos pais utilizando frases como:

“Estou cansado de ser como sou. Às vezes gostava de ser como o mano e não gostar tanto das minhas bonecas.”

“Gostava de ser menina para poder usar os Ténis da Violetta.(Heroína da Disney Channel) As meninas têm mais sorte, também podem usar calças!”

Aos 9 anos, quando aceitou o desafio de fazer um depoimento áudio, por ocasião da Conferência da AMPLOS de 2014, a fim de ajudar outras crianças de género criativo, terminou dizendo:

“Todas as crianças deveriam ser livres de ter a sua Verdade.”

Esta vivência fá-los amadurecer prematuramente. Rouba-lhes a ingenuidade e a espontaneidade.

Mesmo nos casos em que o apoio de toda a família é incondicional, quando chegados à pré-adolescência muitos destes meninos Arco Iris não gostam de falar de si. Sentem-se extremamente incomodados quando os pais falam sobre os seus primeiros anos de vida, principalmente em público. Não gostam de lembrar as angustias que vivenciaram e, só muito em segredo, revisitam as suas caixas de brinquedos. Colecionam todos os mecanismos de defesa, principalmente os que lhes permitem dissimular os seus verdadeiros interesses face a novos interlocutores. O trabalho mais premente destas famílias é, neste momento, reconciliar os seus filhos com a sua própria infância. Sublinhar-lhes, incessantemente, a importância desses primeiros anos de vida na construção da sua auto estima e relembrar-lhes o encanto e o privilégio de sermos pais de uma criança de expressão de género criativo.

É tempo de dar voz aos nossos Arco Íris, deixá-los brilhar em todo o seu esplendor. É tempo de lhes mostrar que têm o direito de ser respeitados nas suas singularidades e amados inteiramente.

 

 

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Apresentamos o Programa da Conferência – Diversidade de Género na Infância que poderá ser consultado AQUI

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Férias

Excelente, sincera, humilde e pragmática entrevista de Rui Maria Pêgo a Inês  Meneses, na Radar.

Oiça aqui

 

 

 

Saida

 

Entrevista com Saida Garcia – Presidente da Chrysallis – Madrid e vice-presidente da Chrysallis –Espanha realizada por Margarida Faria – AMPLOS

MLF – Porquê a designação de “menores transexuais” quando há crianças de género fluído ou não-normativo que não são transexuais?

SG – As palavras são as ferramentas que temos, moldam a nossa visão e relação com a realidade. A associação é especificamente sobre transexualidade, mas acolhemos todas as realidades que nos chegam, menores de expressão de género fluido, não-normativo, o que sejam. Iniciámos a associação com famílias de crianças transexuais. Situação muito concretas.

MLF – Como definem “crianças transexuais”?

SG – Crianças que querem mudar o nome, que querem fazer a sua transição social, querem viver as suas vidas numa nova realidade, independentemente de desejarem ou não uma intervenção médica.

MLF – Quantas crianças transexuais, com as características que descreves, já passaram pela Chrysallis?

SG – Nos últimos três anos cerca de 400.

MLF – Se aparecem pais de crianças de género não-normativo incluem-nas no grupo das crianças trans?

SG – Não fazemos distinção entre crianças cisgénero e trans. Nos nossos encontros todas as crianças são bem-vindas. Atuamos para proteger, para garantir a segurança de crianças nas mais diversas situações. Já fomos a uma escola só porque uma criança não queria vestir o uniforme feminino. Não queria, não se sentia bem, fomos falar com a escola para garantir o seu bem-estar.

MLF – Como abordar uma criança para saber se quer fazer uma transição social, se é de facto trans?

SG – Há que pôr as crianças perante todas as possibilidades. Há que fazê-lo de forma casual. Por exemplo mostrando um documentário sobre crianças transexuais. O acompanhamento tem de ser muito personalizado. É muito importante que a criança esteja na posse da informação plena. Também é importante que os pais saibam que se não é transexual, não vai ser. Deve-se mostrar disponibilidade, dizer: “se queres falar disto a mãe e o pai estão aqui”.

MLF – Como se iniciou a Chrysallis?

SG – A Chrysallis começou com 7 famílias, todas com um caso claro de crianças trans. Encontrámo-nos através das redes sociais.

Em Espanha só há acompanhamento destas crianças a partir dos 18 anos. Eu pergunto-me: como se pode esperar até aos 18 anos? Se é uma rapariga, é uma rapariga! Não pode esperar até aos 18 anos! Quando a minha filha me disse que era uma rapariga, não tinha nenhuma ideia do que era transexualidade. Não tinha qualquer preconceito mas pensava que era algo que só existia nos EUA (ri-se), que só acontecia a pessoas adultas.

No caso da minha filha havia imensos sinais mas não os sabia identificar. Como era muito pequena, teria na altura uns 3 anos, ia deixando que brincasse como queria. Não sabia interpretar, não tinha as ferramentas. Às vezes pensava “vai ser homossexual”. Ela era muito forte e enfrentava todas as situações na escola. Era “um rapaz” que ia para a escola vestido de rosa, com purpurinas. No Carnaval quis ser princesa e fiz-lhe um fato híbrido, um fato de príncipe com uma grande flor no peito, uma capa rosa, mas não ficou satisfeita. Queria protege-la, temia pela sua segurança.

Um dia vi-a esconder o pénis, foi nessa altura que comecei a sentir verdadeira angústia. Às tantas pensava: “ninguém vê o que eu vejo”? E isso angustiava-me ainda mais, só eu entendia os sinais? Outros diziam “estás a fomentar”. Nunca eduquei de acordo com o género, mas tinha cada vez mais dúvidas.

Com 4 anos comecei a questionar-me sobre a exposição pública. Como te exponho publicamente quando queres ser princesa? Aos 6, 7 anos ela começou a esconder-se. Esse foi o momento mais doloroso. Até aí tinha sido uma criança muito combativa e agora escondia-se. Eu não tinha resposta para as perguntas e as perguntas iam mudando. Para mim o limite foi quando me apercebi que a minha filha estava a passar mal. Começaram a insultá-la. Cada vez era mais exagerada em casa, nas suas expressões femininas (que eram muito performativas) e cada vez mais escondida na rua. Até que aos sete anos perguntou-me: “mãe achas que posso ser uma menina?”. Respondi-lhe: “não sei bem como, mas vamos procurar a informação juntas”.

MLF – Quando dizia se podia ser uma menina referia-se ao seu corpo?

SG – Nessa altura não tinha nada a ver com os genitais, tinha apenas sete anos. Começámos a informar-nos. Ela dizia: “sou um menino a informar-se de como ser uma menina.” Na altura senti necessidade de falar com a escola. Disse-lhes que era uma situação séria.

Quando nos juntámos com as primeiras famílias com crianças na mesma situação, foi uma enorme libertação. As crianças são seres sociais. Com sete anos a minha filha tinha um pensamento mágico, era uma super-líder. As crianças não podem esperar pelo início de um novo ano lectivo, a transição social é quando tem de ser, não é algo que se possa programar. Quando decidiu fazer a transição social foi a meio do ano lectivo e disse-o a um par de amigas. Juntou-se com elas e iam pelo recreio da escola a cantar que ela era agora uma menina e não um menino. Começaram a chamar-lhe nomes. Foi o irmão de 11 anos que fez a formação. Foi ele que, estando na mesma escola, explicou o que se estava a passar. Foi aí que decidi juntar outras famílias.

MLF – Como cresceu a Chrysallis?

SG – No primeiro encontro estávamos 12 famílias, foi em 2013. Para mim 12 famílias eram já uma multidão. Desde 2013 que fazemos encontros cada seis meses. Apoiamos famílias de crianças e jovens menores. Alargámos o limite de idades até aos 20 anos, ainda que a partir dos 18 já seja outra luta. Hoje somos 400 famílias.

Chrysallis = http://www.chrysallis.org.es

23 de junho de 2016, San José, Costa Rica.