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Apresentamos o Programa da Conferência – Diversidade de Género na Infância que poderá ser consultado AQUI

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Férias

Excelente, sincera, humilde e pragmática entrevista de Rui Maria Pêgo a Inês  Meneses, na Radar.

Oiça aqui

 

 

 

Saida

 

Entrevista com Saida Garcia – Presidente da Chrysallis – Madrid e vice-presidente da Chrysallis –Espanha realizada por Margarida Faria – AMPLOS

MLF – Porquê a designação de “menores transexuais” quando há crianças de género fluído ou não-normativo que não são transexuais?

SG – As palavras são as ferramentas que temos, moldam a nossa visão e relação com a realidade. A associação é especificamente sobre transexualidade, mas acolhemos todas as realidades que nos chegam, menores de expressão de género fluido, não-normativo, o que sejam. Iniciámos a associação com famílias de crianças transexuais. Situação muito concretas.

MLF – Como definem “crianças transexuais”?

SG – Crianças que querem mudar o nome, que querem fazer a sua transição social, querem viver as suas vidas numa nova realidade, independentemente de desejarem ou não uma intervenção médica.

MLF – Quantas crianças transexuais, com as características que descreves, já passaram pela Chrysallis?

SG – Nos últimos três anos cerca de 400.

MLF – Se aparecem pais de crianças de género não-normativo incluem-nas no grupo das crianças trans?

SG – Não fazemos distinção entre crianças cisgénero e trans. Nos nossos encontros todas as crianças são bem-vindas. Atuamos para proteger, para garantir a segurança de crianças nas mais diversas situações. Já fomos a uma escola só porque uma criança não queria vestir o uniforme feminino. Não queria, não se sentia bem, fomos falar com a escola para garantir o seu bem-estar.

MLF – Como abordar uma criança para saber se quer fazer uma transição social, se é de facto trans?

SG – Há que pôr as crianças perante todas as possibilidades. Há que fazê-lo de forma casual. Por exemplo mostrando um documentário sobre crianças transexuais. O acompanhamento tem de ser muito personalizado. É muito importante que a criança esteja na posse da informação plena. Também é importante que os pais saibam que se não é transexual, não vai ser. Deve-se mostrar disponibilidade, dizer: “se queres falar disto a mãe e o pai estão aqui”.

MLF – Como se iniciou a Chrysallis?

SG – A Chrysallis começou com 7 famílias, todas com um caso claro de crianças trans. Encontrámo-nos através das redes sociais.

Em Espanha só há acompanhamento destas crianças a partir dos 18 anos. Eu pergunto-me: como se pode esperar até aos 18 anos? Se é uma rapariga, é uma rapariga! Não pode esperar até aos 18 anos! Quando a minha filha me disse que era uma rapariga, não tinha nenhuma ideia do que era transexualidade. Não tinha qualquer preconceito mas pensava que era algo que só existia nos EUA (ri-se), que só acontecia a pessoas adultas.

No caso da minha filha havia imensos sinais mas não os sabia identificar. Como era muito pequena, teria na altura uns 3 anos, ia deixando que brincasse como queria. Não sabia interpretar, não tinha as ferramentas. Às vezes pensava “vai ser homossexual”. Ela era muito forte e enfrentava todas as situações na escola. Era “um rapaz” que ia para a escola vestido de rosa, com purpurinas. No Carnaval quis ser princesa e fiz-lhe um fato híbrido, um fato de príncipe com uma grande flor no peito, uma capa rosa, mas não ficou satisfeita. Queria protege-la, temia pela sua segurança.

Um dia vi-a esconder o pénis, foi nessa altura que comecei a sentir verdadeira angústia. Às tantas pensava: “ninguém vê o que eu vejo”? E isso angustiava-me ainda mais, só eu entendia os sinais? Outros diziam “estás a fomentar”. Nunca eduquei de acordo com o género, mas tinha cada vez mais dúvidas.

Com 4 anos comecei a questionar-me sobre a exposição pública. Como te exponho publicamente quando queres ser princesa? Aos 6, 7 anos ela começou a esconder-se. Esse foi o momento mais doloroso. Até aí tinha sido uma criança muito combativa e agora escondia-se. Eu não tinha resposta para as perguntas e as perguntas iam mudando. Para mim o limite foi quando me apercebi que a minha filha estava a passar mal. Começaram a insultá-la. Cada vez era mais exagerada em casa, nas suas expressões femininas (que eram muito performativas) e cada vez mais escondida na rua. Até que aos sete anos perguntou-me: “mãe achas que posso ser uma menina?”. Respondi-lhe: “não sei bem como, mas vamos procurar a informação juntas”.

MLF – Quando dizia se podia ser uma menina referia-se ao seu corpo?

SG – Nessa altura não tinha nada a ver com os genitais, tinha apenas sete anos. Começámos a informar-nos. Ela dizia: “sou um menino a informar-se de como ser uma menina.” Na altura senti necessidade de falar com a escola. Disse-lhes que era uma situação séria.

Quando nos juntámos com as primeiras famílias com crianças na mesma situação, foi uma enorme libertação. As crianças são seres sociais. Com sete anos a minha filha tinha um pensamento mágico, era uma super-líder. As crianças não podem esperar pelo início de um novo ano lectivo, a transição social é quando tem de ser, não é algo que se possa programar. Quando decidiu fazer a transição social foi a meio do ano lectivo e disse-o a um par de amigas. Juntou-se com elas e iam pelo recreio da escola a cantar que ela era agora uma menina e não um menino. Começaram a chamar-lhe nomes. Foi o irmão de 11 anos que fez a formação. Foi ele que, estando na mesma escola, explicou o que se estava a passar. Foi aí que decidi juntar outras famílias.

MLF – Como cresceu a Chrysallis?

SG – No primeiro encontro estávamos 12 famílias, foi em 2013. Para mim 12 famílias eram já uma multidão. Desde 2013 que fazemos encontros cada seis meses. Apoiamos famílias de crianças e jovens menores. Alargámos o limite de idades até aos 20 anos, ainda que a partir dos 18 já seja outra luta. Hoje somos 400 famílias.

Chrysallis = http://www.chrysallis.org.es

23 de junho de 2016, San José, Costa Rica.

O MEU ARCO-ÍRIS

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03/06/2016

O meu Arco-íris

Tenho 43 anos, sou mãe de dois filhos e o mais novo é uma criança de expressão de

género não conforme a norma.

Parecendo um conceito de simples compreensão – para mim e para o meu marido a

expressão da individualidade é um direito inalienável –, o meu filho é feito de cores

que o sujeitam à discriminação.

Como explicar as unhas cor-de- rosa à bisavó, aos Tios… Compramos a boneca, o

vestido da Princesa Rapunzel? Deixamos que ele leve o brinquedo favorito para a

escola? Estaremos a protegê-lo? A expô-lo?

Além das dúvidas, fomos também acumulando tristes episódios de preconceito,

protagonizados por adultos e alguns deles, diria mesmo os mais graves, por agentes

educativos. O meu filho foi forçado a amadurecer prematuramente e penso que até

lhe foi roubada alguma ingenuidade e espontaneidade.

Perdemos o convívio regular com alguns amigos que, nunca dizendo abertamente,

sentiam óbvio desconforto e reprovação quando confrontados com episódios

quotidianos de brincadeira onde entrava, obrigatoriamente, a maquilhagem, os

colares da mãe, os sapatos de salto da avó, o trocar de roupa com a prima, etc.

Vivemos no terror de, a qualquer momento, poder assistir à rejeição do nosso filho por

membros da família mais conservadores porém não menos importantes para nós.

Isso não aconteceu.

Importa referir que o papel do Pai foi fundamental para ultrapassar esta barreira. A

naturalidade com que lida com as nossas rotinas infantis (o pai é que teve sempre

paciência para tomar chá com as Barbies) tornou-se contagiante para os restantes

elementos da família alargada.

A AMPLOSIG (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e

Identidade de Género) deu-nos o apoio que nos faltava. Encontrámos mensagens

como:

“Somos um grupo de pais que se propõe lutar por uma sociedade mais justa, opondo-

nos a todas as formas de discriminação.”

“(…)sabemos que os pais estão muito sozinhos, nem sempre sabem como agir da

melhor forma. Andam eles próprios a aprender a ser pais,(…)”.

Não precisamos de rótulos para o nosso filho, não nos preocupa a sua orientação

sexual, queremos sim que ele seja respeitado e apreciado na sua singularidade, tal

como foi o primogénito, aliás, tal como todas as crianças deveriam ser.

Para finalizar gostaria de partilhar o desejo manifesto pelo meu filho, em outubro de

2014, na altura com 9 anos de idade:

“Desejo que nenhuma criança tenha de esconder o que é de verdade.”