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TEXTO APRESENTADO NA CONFERÊNCIA “DIVERSIDADE DE GÉNERO NA INFÂNCIA” – AMPLOS- CIES-ISCTE – dia 8 de outubro de 2016 – núcleo AMPLOS-INFÂNCIA

Lembro-me bem do dia em que nasceste.

Lembro-me de tudo (afinal foste o primeiro).

Lembro-me de quando te deitaram em cima da barriga da tua mãe.

Lembro-me que paraste de chorar e que abriste os olhos.

 

Que me aproximei de ti com duas lágrimas gigantes suspensas nos olhos (que julgo

ainda guardar comigo);

que instintivamente te cheirei, como outro qualquer mamífero, um cheiro que ainda

hoje reconheço, cada vez que te beijo e contemplo em segredo, enquanto sonhas.

E lembro-me, lembro-me muito bem, do que te sussurrei nesse momento.

Da promessa que te fiz no nosso primeiro momento juntos.

A tua felicidade é uma prioridade, seja ela com uma bola de futebol nos pés, que

quase sempre me mostraste que não querias ter, ou com uma sereia pela mão, que

ainda hoje te conforta. Depois disso muito pouco importa.

Importa o respeito que tens de ter pelos outros e o respeito que os outros terão de

ter por ti.

Importa que percebas que todas as tuas decisões terão consequências.

Importa que aprendas com os erros e com os sucessos.

Importa a tolerância, a aceitação e a inclusão.

Importa muito a tua segurança. Importa quase tanto como a tua liberdade e quase

tanto como o equilíbrio entre ambas. Um exercício que continua a ser o meu, o teu, o

nosso maior desafio.

Sabes bem o quão bom é ser diferente, mas também sabes que a diferença mete

medo.

Sabes bem que ser diferente é gerar riqueza, mas também sabes que a diferença traz

desconfiança.

Viver assim não é fácil, mas como diz a tua mãe, se fosse fácil não tinha graça.

A nossa história ainda agora começou e sei (tu ainda não) que as páginas mais difíceis

serão as próximas a ser escritas.

Não as vou escrever por ti, porque a tua caneta não precisa da minha mão, mas

poderás sempre  contar com a minha voz para te guiar por entre as linhas dos teus

dias.

Gosto muito de ser teu pai, quase tanto como gosto de ti.

FIM

 

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TEXTO APRESENTADO NA CONFERÊNCIA “DIVERSIDADE DE GÉNERO NA INFÂNCIA” – AMPLOS- CIES-ISCTE – dia 8 de outubro de 2016 – núcleo AMPLOS-INFÂNCIA

Crianças de expressão de género não normativo, criativo, não binário…

São já muitos os nomes para falar, nem mais nem menos, de gente pequenina que, assim que inicia o seu processo de comunicação com o mundo, o faz de forma não normativa.

São os meninos que gostam de cor de rosa, purpurinas, bonecas, vestidos;

Meninas que adoram todo o universo masculino.

Parece, à partida, um conceito de simples compreensão e aceitação. Porém a realidade é, na grande maioria dos casos que conhecemos, bem mais dura.

Estas crianças. são sujeitas a discriminação desde tenra idade e, infelizmente, o preconceito surge no meio escolar e, por vezes, no seu próprio seio familiar.

As famílias questionam a simples compra de um brinquedo.

“Poderemos oferecer o vestido de Princesa ao menino, as chuteiras à menina?”

“Haverá o olhar reprovador dos avós, tios, daqueles amigos mais conservadores, que nunca entenderam os espetáculos do menino com as roupas da prima?”

Ou,

“Irá o primo recusar-se a jogar à bola com a menina.”

“Deveremos nós deixar que levem o brinquedo novo para a escola como fazem as outras crianças?”

“Conseguiremos protegê-los? Iremos expô-los a situações de bulliyng?”

“Estarão as escolas sensibilizadas e dotadas de meios para proteger os nossos filhos?”

O preconceito social, a falta de informação e formação sobre esta matéria é enormemente verificada no meio escolar. As famílias são deixadas ao abandono e sem argumentos, muitas delas ainda em conflito entre si. São confrontadas quotidianamente com a questão da aceitação da expressão de género dos seus filhos.

Qual será o melhor caminho? A aceitação sem restrições… aceitação parcial… ou a proibição?

É assim que nos chegam à AMPLOS estas famílias. Vêm cheias de dúvidas e inseguranças, sedentas de partilha com outros pais. Os seus filhos, – e importa referir que, até à data, são só famílias de crianças de sexo masculino – têm idades entre os 4 e os 8 anos e usam como palco principal da sua expressão de género, ainda sem filtros, os jardins de infância, escolas de ensino pré-escolar e ensino básico, locais onde, infelizmente, ainda se estereotipam as brincadeiras. Ainda se usa amiúde o “Cantinho da Casinha de Bonecas e da Cozinha” para as meninas e a “Caixa das Bolas e dos Carrinhos” para os rapazes.

Surgem-nos relatos de discriminação. Episódios terríveis, ainda mais se tivermos presente onde acontecem e a idade destes alvos do preconceito. Estas crianças são vítimas de bulliyng e sentem-se “A” causa do conflito. Sentem-se insistentemente “erradas”!

O seu discurso espelha o conflito interior que os habita tão precocemente:

Uma dessas crianças, chamemos-lhe Íris porque é de todas as cores, e, entre os 4 e os 5 anos, verbalizou sentimentos aos pais utilizando frases como:

“Estou cansado de ser como sou. Às vezes gostava de ser como o mano e não gostar tanto das minhas bonecas.”

“Gostava de ser menina para poder usar os Ténis da Violetta.(Heroína da Disney Channel) As meninas têm mais sorte, também podem usar calças!”

Aos 9 anos, quando aceitou o desafio de fazer um depoimento áudio, por ocasião da Conferência da AMPLOS de 2014, a fim de ajudar outras crianças de género criativo, terminou dizendo:

“Todas as crianças deveriam ser livres de ter a sua Verdade.”

Esta vivência fá-los amadurecer prematuramente. Rouba-lhes a ingenuidade e a espontaneidade.

Mesmo nos casos em que o apoio de toda a família é incondicional, quando chegados à pré-adolescência muitos destes meninos Arco Iris não gostam de falar de si. Sentem-se extremamente incomodados quando os pais falam sobre os seus primeiros anos de vida, principalmente em público. Não gostam de lembrar as angustias que vivenciaram e, só muito em segredo, revisitam as suas caixas de brinquedos. Colecionam todos os mecanismos de defesa, principalmente os que lhes permitem dissimular os seus verdadeiros interesses face a novos interlocutores. O trabalho mais premente destas famílias é, neste momento, reconciliar os seus filhos com a sua própria infância. Sublinhar-lhes, incessantemente, a importância desses primeiros anos de vida na construção da sua auto estima e relembrar-lhes o encanto e o privilégio de sermos pais de uma criança de expressão de género criativo.

É tempo de dar voz aos nossos Arco Íris, deixá-los brilhar em todo o seu esplendor. É tempo de lhes mostrar que têm o direito de ser respeitados nas suas singularidades e amados inteiramente.

 

 

Acartaz-conferencia

 

 

Apresentamos o Programa da Conferência – Diversidade de Género na Infância que poderá ser consultado AQUI

cartaz-conferencia

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